Cheguei pela terceira vez ao maior evento de tecnologia da América Latina. O que mudou não foi a inteligência artificial. Foi a pergunta que fazemos sobre ela.
O Rio no centro do mapa
Voltei ao Web Summit Rio, e essa é a terceira vez que acompanho o evento de perto. O que mais me marca não é uma palestra específica nem um anúncio bilionário de investimento. É a sensação, repetida a cada ano, de ver o Rio de Janeiro ocupar um espaço que durante muito tempo pareceu reservado a outras cidades. Em 2026 o evento chega à quarta edição, e por alguns dias a cidade muda de ritmo. Gente do mundo inteiro desembarca aqui para conversar sobre o que vem pela frente, e essas conversas acontecem tanto nos palcos quanto nas filas do café, nos corredores, nos encontros que se estendem noite adentro.
Não é exagero dizer que o Rio virou um ponto de encontro para quem pensa o futuro. Há fundadores, investidores, pesquisadores e curiosos discutindo negócios, tecnologia e novas formas de trabalhar no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Ver isso acontecer de perto, três anos seguidos, tem um peso particular para quem nasceu e cresceu olhando para essa cidade.
A palavra do ano tem nome
Se eu tivesse que resumir o evento em uma única expressão, seria fácil: inteligência artificial. Ela aparece em quase todo painel, em quase toda conversa de corredor, em quase todo pitch. Mas o que me chama atenção não é a repetição do termo. É perceber o quanto a IA já entrou na rotina de profissionais que, até pouco tempo, não se viam como gente de tecnologia. Médicos, professores, advogados, contadores, gente do marketing, do design, da logística. A mudança deixou de ser promessa para o futuro. Ela já está em curso, dentro do trabalho real das pessoas.
Já vivi outras viradas como essa
Quem é da minha geração talvez lembre. Houve um tempo em que escrever um documento significava sentar diante de uma máquina de escrever e torcer para não errar a última linha. Depois veio o computador, e o erro deixou de ser uma tragédia. Pesquisar, por muitos anos, era ir até a estante, abrir um livro, folhear, anotar à mão. Aí chegou a internet, e o mundo inteiro coube numa tela.
Ontem, a máquina de escrever. Depois, o computador. Então, a internet. Agora, a inteligência artificial. Cada salto assustou no começo e, no fim, ampliou o que conseguíamos criar, produzir e transformar.
A inteligência artificial é o capítulo seguinte dessa mesma história. Cada uma dessas viradas assustou um pouco quem estava no meio do caminho, e cada uma delas, no fim, ampliou aquilo que conseguíamos fazer. A IA não foge a essa lógica. Ela é grande, é rápida e mexe com praticamente todo mundo. Mas não é a primeira vez que o chão se move debaixo dos nossos pés, e isso me deixa um pouco mais tranquilo do que ansioso.
De onde eu venho
Algumas pessoas me conhecem pelo trabalho que faço hoje, ligado a direito, tecnologia, proteção de dados e inovação. Outras conhecem menos a minha origem. Fiz o ensino médio técnico numa escola da FAETEC, a rede pública de educação técnica do Rio, e me formei técnico em processamento de dados. Tecnologia nunca foi, para mim, assunto de adulto. Foi paixão de adolescente.
Eu já mexia com podcast numa época em que quase ninguém falava de podcast no Brasil, muito antes de existirem nomes como Flow ou Podpah. Em 2011 estive na Campus Party, daquelas em que você dormia pouco e voltava para casa com a cabeça fervilhando de ideia. Olhando para trás, percebo que quase sempre estive por perto quando uma nova tecnologia começava a fazer barulho. Talvez por isso eu encare a IA com mais curiosidade do que receio.
Quando a tecnologia encontra o direito
Uso tecnologia na prática jurídica há muitos anos. Isso, por si só, não é novidade na minha rotina. O que mudou, e mudou de um jeito que me dá orgulho, é que hoje consigo tratar tecnologia no direito não só como ferramenta de trabalho, mas como tema de estudo, de ensino e de reflexão. Levo essas discussões para a sala de aula, para conversas com outros profissionais, para textos como este. A tecnologia deixou de ser só uma forma de resolver tarefas. Virou também um campo para pensar e compartilhar com quem está chegando agora.
A pergunta finalmente mudou
Aqui está o que considero o maior aprendizado desta edição. Durante muito tempo, a conversa sobre IA girou em torno de uma pergunta meio assustada: ela vai me substituir? Vai acabar com a minha profissão? Vai tirar empregos?
Essa pergunta perdeu força. No lugar dela surgiu outra, bem mais útil: o quanto você consegue produzir usando inteligência artificial? Quanta eficiência você entrega? Quanto trabalho repetitivo você deixa de carregar nas costas? E, principalmente, quanto tempo você libera para aquilo que máquina nenhuma faz bem, como pensar com profundidade, criar, decidir e cuidar da relação com as pessoas?
A primeira paralisa. A segunda coloca você em movimento.
Eficiência não é o fim da linha, é o começo
Vale dizer com clareza, porque esse ponto costuma se perder: ganhar tempo com IA não é trabalhar menos por trabalhar menos. É redirecionar energia. Quando uma tarefa repetitiva sai das suas mãos, sobra espaço para aquilo que realmente exige um ser humano. No meu dia a dia, vejo isso o tempo todo. A parte mecânica acelera, e a parte que pede análise, sensibilidade e julgamento passa a receber a atenção que merece.
É aí que mora o ponto que mais me importa. A tecnologia pode assumir o repetitivo, mas a humanidade continua sendo nossa. A escuta, o cuidado com quem está do outro lado, a leitura de um contexto que nenhum modelo captura por inteiro, nada disso saiu de cena. Pelo contrário. Quanto mais a máquina dá conta do operacional, mais valioso fica aquilo que só nós conseguimos oferecer.
Evoluir faz parte
Não enxergo a inteligência artificial como inimiga. Ela não é algo contra o que precisamos lutar, e sim algo que precisamos aprender a usar bem, sem abrir mão de quem somos. Isso exige adaptação, e adaptação dá trabalho. Sempre deu, em todas as viradas anteriores.
Mas tudo na vida evolui. As ferramentas mudam, os métodos mudam, e quem trabalha com eles também precisa mudar. Não se trata de correr atrás de toda novidade só porque ela é nova, nem de abraçar a tecnologia sem nenhum senso crítico. Trata-se de acompanhar o movimento com os olhos abertos, aproveitando o que ela tem de bom e mantendo a cabeça no lugar.
Saí desta edição do Web Summit Rio com uma convicção simples. O profissional que vai se destacar nos próximos anos não é o que tem medo da IA, nem o que entrega a ela tudo sem pensar. É quem aprende a trabalhar ao lado dela: usando a máquina para ganhar tempo, e usando esse tempo para ser mais humano. A pergunta mudou. Quem entender isso primeiro vai sair na frente.