O Brasil ganhou seu primeiro Hub de Bioimpressão 3D, e nós estávamos lá dentro

Philipe Cardoso Autor 10 min de leitura Atualizado em 18/06/2026

No campus da UFRJ, no Rio de Janeiro, a Merck Life Science e a Coppe inauguraram um centro inteiro dedicado a imprimir tecido biológico em laboratório. Acompanhamos de perto o que essa tecnologia já consegue fazer, e por que ela importa para quem trabalha com impressão 3D no país.

Bioimpressora 3D depositando biotinta rosada sobre uma placa de cultivo durante o lançamento do Hub de Bioimpressão 3D da Merck com a Coppe/UFRJ

Uma seringa desce devagar sobre uma placa iluminada por uma luz rósea e começa a depositar, camada por camada, um material que não é plástico nem resina. É biotinta, uma mistura viável de células e biomateriais. Em poucas horas, ali na bancada, vai nascendo a estrutura tridimensional de um nariz. Não é ficção científica, nem protótipo de um laboratório do outro lado do mundo. Aconteceu no Rio de Janeiro, no dia 18 de junho de 2026, na inauguração do primeiro Hub de Bioimpressão 3D do Brasil.

O centro, batizado de Biotech Hub, nasce de uma parceria entre a Merck Life Science e a Coppe/UFRJ, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estivemos presentes no lançamento, dentro da incubadora de startups da Coppe, e o que vimos ali pede uma conversa mais longa do que cabe num vídeo de poucos minutos. Por isso este texto.

O que é, afinalBioimpressão 3D explicada sem rodeios

Quem acompanha o setor já sabe que uma impressora 3D comum constrói um objeto adicionando material camada sobre camada, normalmente a partir de um arquivo digital no formato STL. A bioimpressão segue exatamente a mesma lógica de fabricação aditiva. A diferença está no que sai pelo bico: no lugar do filamento plástico, entra a biotinta, capaz de gerar estruturas com características semelhantes às de tecidos biológicos.

O fluxo de trabalho, inclusive, é familiar para qualquer maker. A modelagem é feita em um software à parte, exportada como STL e importada para o sistema da bioimpressora, onde se faz o fatiamento e o ajuste dos parâmetros de impressão antes de a máquina assumir o trabalho. Durante o evento, uma das impressoras rodava na velocidade mais lenta de propósito, para que a peça, aquele nariz, atravessasse todo o lançamento ainda em construção. Passou das trinta camadas ao longo de mais de duas horas. É a mesma cadeia técnica da impressão 3D que já conhecemos, aplicada a um objetivo radicalmente diferente.

Tela exibe o processo de bioimpressão 3D em close, com uma estrutura de tecido biológico sendo construída camada por camada
O processo, em close: a bioimpressora deposita biotinta camada por camada, exatamente como uma impressora 3D convencional faz com o filamento. A diferença está no resultado, uma estrutura biológica.

Por que importaDa bancada acadêmica para a medicina de precisão

O ponto que torna o Biotech Hub relevante não é a novidade da máquina em si, e sim para onde ela aponta. A tecnologia será aplicada em estudos sobre doenças, em testes de medicamentos e no desenvolvimento de organoides personalizados, versões miniaturizadas e tridimensionais de tecidos e órgãos cultivadas em laboratório. Modelos assim são mais fiéis à biologia humana do que as tradicionais culturas em placa plana, e essa fidelidade muda o jogo da pesquisa biomédica.

Na prática, significa testar um composto farmacêutico em um modelo que reage de forma mais parecida com o corpo humano antes de chegar a etapas mais caras e demoradas. Significa estudar uma doença em um tecido que imita o do paciente. É esse o caminho da medicina de precisão: tratar a pessoa, não a média estatística. As aplicações apresentadas no evento iam de modelos de doença e triagem de medicamentos até, num horizonte mais amplo, a produção de alimentos cultivados.

O avanço da inovação biomédica depende não apenas do desenvolvimento de novas terapias, mas também da criação de ferramentas mais sofisticadas para tornar os processos de pesquisa mais rápidos e precisos. A bioimpressão 3D representa um passo importante nessa direção, aproximando a ciência de modelos cada vez mais fiéis à biologia humana.
Leandra Baptista, professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro

Slide do evento mostra as aplicações da bioimpressão 3D: modelos de doença, triagem de medicamentos, modelagem de doenças in vitro e alimentos cultivados
As frentes de aplicação apresentadas no lançamento: do estudo de doenças e da triagem de medicamentos até os organoides e os alimentos cultivados.

Onde e para quemUm centro aberto a startups, indústria e pesquisa

O Biotech Hub fica no novo prédio de Biotecnologia, dentro do campus da incubadora de startups da Coppe/UFRJ. A escolha do endereço não é detalhe: ao instalar a infraestrutura no coração de um dos ecossistemas de inovação mais consolidados do país, a iniciativa nasce conectada a quem efetivamente cria negócios. O espaço estará aberto a startups, spin-offs, indústrias e grupos de pesquisa interessados em bioimpressão 3D.

Esse desenho responde a um problema concreto de quem tenta empreender em ciências da vida no Brasil. Na impressão 3D tradicional, hoje uma máquina de qualidade custa alguns milhares de reais e deixa muita gente empreender de dentro de casa, fabricando e vendendo peças pela internet. Em biotecnologia, a barreira de entrada é outra. Equipamento, insumo e reagente custam caro, e qualquer estudo ou validação de uma ideia já exige investimento pesado logo de partida. Um centro compartilhado que oferece prototipagem, testagem de insumos, matérias-primas de qualidade, serviços e treinamentos customizados derruba boa parte dessa barreira.

A conexão entre pesquisadores, startups e especialistas internacionais é fundamental para acelerar o desenvolvimento da bioimpressão 3D no Brasil. Nosso objetivo é criar um ambiente colaborativo capaz de impulsionar novas soluções científicas e ampliar o acesso a tecnologias de ponta no ecossistema de inovação.
Misael Silva, Innovation Ecosystem Manager para a LATAM, Merck Life Science

Painel de especialistas debate o futuro da bioimpressão 3D no Brasil durante a inauguração do Biotech Hub na Coppe/UFRJ
O painel de abertura reuniu pesquisadores e representantes do setor para discutir como acelerar a bioimpressão 3D no país.

Dentro do laboratórioOs equipamentos que equipam o hub

Para sustentar pesquisas de alta complexidade, o hub foi montado com uma combinação de equipamentos e insumos que vale conhecer. É aqui que a conversa sai do conceito e entra no chão de laboratório:

  • Bioimpressora 3DO equipamento central, que deposita biotinta para construir as estruturas tridimensionais.
  • LuminexPlataforma de análise multiplex, para medir vários parâmetros biológicos de uma mesma amostra.
  • CellASICSistema de cultivo celular em microfluídica, com controle fino do microambiente das células.
  • Biotintas TissueFabA linha de biotintas usada como matéria-prima da impressão biológica.
  • Meio 3dGROMeio de cultivo voltado à formação e manutenção de estruturas 3D.
  • Insumos 3DInsertos e placas para cultivo celular 3D, suplementos para organoides e reagentes de dissociação celular.

O conjunto foi pensado para aumentar a eficiência na formação e na manutenção de estruturas tridimensionais em laboratório. Ou seja: não basta imprimir, é preciso manter aquele tecido vivo e útil para a pesquisa.

Detalhe da bioimpressora 3D com a seringa de biotinta TissueFab posicionada sobre a placa de cultivo
Detalhe do cabeçote: a biotinta é carregada como em uma seringa e depositada com precisão sobre a placa de cultivo.

Conexão globalA holandesa HUB Organoids e o salto internacional

O hub brasileiro não nasce isolado. O programa conta com a colaboração internacional da HUB Organoids Holding B.V., empresa holandesa referência mundial em tecnologia de organoides e dona de um dos principais portfólios de patentes do setor, recentemente adquirida pela Merck. Essa colaboração se traduz em cursos especializados pela plataforma Learn@M e em mentorias técnicas e de mercado destinadas aos projetos selecionados no Merck Innovation Award.

É um detalhe estratégico. Significa que uma startup incubada na UFRJ pode acessar conhecimento e mentoria de quem está na fronteira global dos organoides, sem precisar atravessar o Atlântico. Para um ecossistema que historicamente sofre com a distância em relação aos grandes centros de pesquisa, encurtar esse caminho tem valor real.

Apresentação no evento exibe participação internacional, reforçando a colaboração global por trás do Hub de Bioimpressão 3D
A conexão internacional foi um dos eixos do lançamento: conhecimento de fronteira chegando direto ao ecossistema brasileiro.

Em uma frase

O primeiro Hub de Bioimpressão 3D do Brasil junta, no mesmo endereço, a tecnologia de ponta de uma líder global em ciência, a capacidade de formar empresas de uma das melhores engenharias do país e o conhecimento internacional em organoides. É infraestrutura, mas também é ponte.

Nossa leituraO que esse lançamento diz sobre a impressão 3D

Acompanhamos a fabricação aditiva no dia a dia, e há uma linha clara ligando a impressão 3D que popularizou prototipagem e pequenos negócios à bioimpressão que vimos no Rio. A mesma técnica que transformou a indústria, fazendo protótipos e até produtos finais a partir de um arquivo digital, está agora sendo apontada para a saúde. Ver, ao vivo, um arquivo STL virar uma estrutura física na área biomédica deixa uma impressão difícil de ignorar: a próxima revolução da impressão 3D talvez não esteja mais na bancada do maker, e sim na do laboratório.

Há ainda um desdobramento que costuma passar despercebido: a impressão de alimentos. A mesma família de técnicas que deposita biotinta pode, em outra frente, depositar matéria comestível, campo que se conecta direto com a indústria de alimentos citada entre as aplicações do hub. É o tipo de fronteira que soaria distante há poucos anos e que hoje já tem endereço no Brasil.

Cobertura Zoom Digital

Por que estivemos lá

Fomos convidados pela Merck e pela UFRJ para acompanhar o lançamento de perto, e fizemos questão de estar presentes. Acompanhar de dentro um marco como esse, e traduzir para quem nos segue o que a técnica de impressão 3D já é capaz de fazer na saúde, é exatamente o tipo de conteúdo que nos move.

Nosso agradecimento às equipes da Merck e da Coppe/UFRJ pelo convite. Seguimos acompanhando para onde a bioimpressão 3D leva o setor no Brasil.

Plateia lotada acompanha a inauguração do primeiro Hub de Bioimpressão 3D do Brasil no campus da Coppe/UFRJ
Casa cheia na incubadora da Coppe/UFRJ: o interesse pela bioimpressão 3D no Brasil é real e só cresce.

Perguntas frequentesBioimpressão 3D em 4 respostas rápidas

O que é bioimpressão 3D?

É uma variação da impressão 3D que usa biotintas, em vez de plásticos, para construir camada por camada estruturas com características semelhantes às de tecidos biológicos em laboratório. A lógica de fabricação aditiva é a mesma da impressão 3D convencional.

Onde fica o primeiro Hub de Bioimpressão 3D do Brasil?

No novo prédio de Biotecnologia, dentro do campus da incubadora de startups da Coppe/UFRJ, no Rio de Janeiro. É uma parceria entre a Merck Life Science e a universidade, inaugurada em 18 de junho de 2026.

Para que serve a bioimpressão 3D?

Para estudos sobre doenças, testes de medicamentos, desenvolvimento de organoides personalizados e criação de modelos biológicos mais fiéis à biologia humana, com aplicações em medicina de precisão, saúde humana e animal e na indústria de alimentos.

Qualquer startup pode usar o hub?

O Biotech Hub foi aberto a startups, spin-offs, indústrias e grupos de pesquisa interessados em bioimpressão 3D, oferecendo equipamentos, insumos, serviços e treinamentos. Projetos selecionados no Merck Innovation Award ainda recebem mentoria e cursos com colaboração internacional.


Sobre a Merck. Empresa líder em ciência e tecnologia em Saúde, Life Science e Electronics, fundada em 1668, com mais de 62.000 colaboradores e vendas de € 21,1 bilhões em 65 países em 2025. Nos Estados Unidos e no Canadá, seus setores operam sob os nomes MilliporeSigma, EMD Serono e EMD Electronics.

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Cobertura no local por Zoom Digital · Rio de Janeiro, 18 de junho de 2026.

 

Sobre o autor

Philipe Cardoso

Com 33 anos de idade, sou um carioca apaixonado por tecnologia e fotografia. Além de ser o criador do Portal Zoom Digital, que preserva sua essência desde os tempos em que era um blog, também sou um verdadeiro entusiasta e amante de todas as formas de tecnologia. Através do Portal, compartilho minha paixão pela tecnologia e trago as últimas novidades e tendências para os leitores. Também sou fascinado pelo mundo da fotografia, explorando o poder das imagens para capturar momentos únicos e transmitir histórias cativantes.

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